Eleição nos EUA não deve gerar "Obama europeu"
Sábado, 15 de novembro de 2008, 19h26
Steven Erlanger*
Na euforia européia com a eleição de Barack Obama, há também o início de uma auto-reflexão a respeito dos problemas de integração racial na Europa. Muitos se indagam se poderia haver um Obama francês, inglês, alemão ou italiano e todos sabem que a resposta é não, não tão cedo.
É arriscado traçar comparações raciais entre Estados Unidos e Europa, dadas todas as diferenças históricas e culturais. Voltando aos dias em que notórios americanos negros como Josephine Baker e James Baldwin encontraram abrigo na França, a questão racial é há tempos uma das razões pela qual a Europa olha com desprezo para os Estados Unidos, mesmo tendo seus próprios problemas raciais pós-coloniais.
"Sempre diziam, ’se você acha que as relações raciais são ruins na França, veja os EUA,’" disse Mohamed Hamidi, ex-editor do Bondy Blog, criado após as manifestações de 2005 dos subúrbios de Paris, repletos de imigrantes. "Mas esse argumento agora não se sustenta," afirmou.
Para muitos imigrantes na Europa, a vitória de Obama é "uma pequena revolução" em direção a um melhor tratamento às minorias, disse Nadia Azieze, 31 anos, enfermeira nascida na Argélia e criada por aqui. "Nunca vai ser igual," disse, enquanto comia arroz com carneiro no bairro parisiense racialmente misto de Barbes-Rochechouart.
Sua irmã, Cherine, 29 anos, é técnica em computação. Obama "realmente representa o sonho da América - trabalhando, você consegue," disse. "É uma esperança para o mundo inteiro."
Mas as irmãs são menos otimistas a respeito da realidade da França, onde as minorias desempenham papel político limitado, com apenas um representante negro eleito na Assembléia Nacional da França continental. Será que a eleição de Obama causou uma autêntica auto-reflexão por parte das maiorias daqui? "É politicamente correto afirmar ‘ótimo! Ele é negro, vamos aplaudir," disse Nádia. "Mas no fundo, nada mudou. As pessoas dizem uma coisa e acreditam em outra." Em todos os seus empregos, disse, "sempre pediram para eu fazer mais por ser imigrante. Sempre precisamos provar nosso valor."
Descendo a rua, entre roupas baratas do camelô da calçada, Fatou Diedhjou, 34 anos, nascida no Senegal, disse que a vitória de Obama pode fazer os franceses darem aos negros "um pouco de respeito." Mas ela os considera profundamente racistas, "achando que todos os negros são ignorantes e só servem para fazer trabalhos de limpeza."
Obama é uma figura excepcional mesmo nos Estados Unidos, uma nação de imigrantes com um longo e complexo histórico de problemas raciais, que datam desde os conflitos indígenas e o comércio de escravos, que produziu uma sangrenta guerra civil.
A maioria dos países europeus era quase etnicamente homogênea até o período pós-colonial. A Grã-Bretanha, por exemplo, era predominantemente branca até meados do século 20 e ainda não tem uma classe-média negra significativa, enquanto os imigrantes franceses são quase todos originados de suas antigas colônias da África setentrional, como Argélia, Marrocos, Tunísia, ou da África negra, como Mali, Senegal e Costa do Marfim. Se analisados em termos de representação política de minorias, tanto os Estados Unidos quanto a Europa estão deficientes, apesar da vitória de Obama aparentemente ressaltar o quão atrasada está a Europa.
Obama era o único negro no último Senado e, se ele não for substituído por um afro-americano, a nova composição do Senado não terá nenhum. A nova Câmara tem 39 representantes negros, cerca de 9%. Os negros representam cerca de 13% da população americana.
Já a senegalesa Rama Yade, secretária de Estado de direitos humanos, se considera "uma dolorosa exceção" no governo francês, apesar do presidente Nicolas Sarkozy ter nomeado três proeminentes mulheres negras ou muçulmanas para seu governo. Quanto à celebração de Obama pela elite política, disse, "o entusiasmo que expressam por esse longínquo americano não aparece para as minorias na França."
Não são apenas os imigrantes que refletem sobre o que a vitória de Obama significa para a Europa. O ministro da Defesa da França, Herve Morin, considerou a vitória "uma lição" para uma democracia francesa atrasada na adoção da integração.
"Nessa eleição, os americanos não escolheram apenas um presidente, mas também uma identidade," disse Dominique Moisi, analista político francês. "Agora nós na França também precisamos pensar a respeito de nossa identidade - é a mais desafiadora das eleições. Entendemos que ficamos para trás e que a América reconquistou a tocha da revolução moral."
Na Itália, Jean-Leonard Touadi, o único membro negro do Parlamento do país, entende de forma semelhante a vitória de Obama. É "uma enorme e concreta provocação à sociedade e à política européia," disse o congolês. Obama dá a esperança, continua, de que "pode haver algo parecido na Europa."
Mas não tão cedo, segundo Hossain Moazzem, garçom bengalês no restaurante L’Insalata Ricca, que espera que a vitória de Obama promova "a mudança em todo o mundo." Mas a Itália, disse, tem pela frente um caminho "bem longo."
Também há ceticismo no Reino Unido. Trevor Phillips, negro, presidente da Comissão pela Igualdade e Direitos Humanos, órgão independente, disse que o sistema político desfavorece os imigrantes. "Se Barack Obama vivesse aqui, eu ficaria muito surpreso se conseguisse avançar pelo sufoco institucional existente, mesmo para alguém tão brilhante," contou ao Times de Londres.
O Reino Unido possui diversos ministros de etnia minoritária sob o Gabinete, mas apenas 15 não-brancos entre os representantes da Câmara dos Comuns. O sistema parlamentar dificulta a proeminência de jovens ou estrangeiros na política.
"No Reino Unido, você não consegue fazer um discurso brilhante e ganhar destaque como aconteceu com Barack Obama," disse Sadiq Khan, ministro do Trabalho, ao jornal The Guardian. "Você precisa se destacar entre as fileiras do Parlamento."
Mas Ashok Viswanathan, diretor assistente da Operação Voto Negro, campanha para engajar politicamente membros de minorias, prevê que o país pode ter um líder de partido de alguma minoria nos próximos 10 ou 15 anos e um primeiro-ministro em 30.
"Se há dois anos alguém dissesse que haveria um presidente negro, essa pessoa seria alvo de piadas," disse. "A própria natureza da aspiração está no momento em que barreiras são rompidas, seja com a ida à lua ou com o primeiro negro no Gabinete - algo que ninguém acredita que vai acontecer."
continua adiante….
Tradução: Amy Traduções
The New York Times
íntegra em http://noticias.terra.com.br/mundo/interna/0,,OI3331661-EI8142,00.html