25.11.07
Blumenau nasceu pela mão do negro
21/11/2007
Fonte: Jornal de Santa Catarina
Antes mesmo da chegada dos imigrantes, eles já abriam as primeiras picadas. Os negros, usados como mão-de-obra escrava, foram os primeiros a trabalhar na criação da colônia Blumenau.
MAGALI MOSER - magali.moser@santa.com.br
Há uma outra Blumenau além da marcada pelas raízes alemãs, de gente galega, pele e olhos claros. Longe dos anúncios publicitários e panfletos turísticos, a cidade que carrega a máxima de loira assume a cor da miscigenação já na origem: foi erguida a partir do suor dos negros.
Antes mesmo da fundação do município, em 1850, eles abriram as primeiras clareiras na mata fechada. Submetidos a jornadas de trabalho braçal e aprisionados para evitar fugas, escravos africanos levantaram a estrutura inicial para a implantação da colônia que deu origem à cidade.
Registros de cartas mantidas entre Hermann Bruno Otto Blumenau e o cônsul geral do Brasil na Prússia, na época, Johann Jacob Sturz, confrontam com a versão oficial da fundação do município, propagada nas páginas dos livros de história e nas manifestações culturais cultivadas ao longo do tempo.
Os documentos mostram que dois anos antes dos 17 imigrantes alemães considerados pioneiros desembarcarem na foz do Ribeirão da Velha liderados por Doutor Blumenau, escravos já habitavam a região, contratados por fazendeiros da época.
A exploração do trabalho braçal dos negros foi determinante - não só para a formação da estrutura inicial da colônia, mas também para a construção da cidade. Mesmo assim, eles continuam à margem na cidade que se orgulha dos traços europeus e da fama de "Alemanha brasileira".
- Ninguém fala que Blumenau começou pelo trabalho negro. Com a estruturação da colônia foi se criando um núcleo alemão, mas escravos tiveram papel fundamental. O projeto de colonização foi uma "higiene racial", não visualizava a miscigenação - resume o professor e historiador André Voigt.
17 mil negros e pardos
Negros e pardos somam hoje mais de 17 mil pessoas no município. Ainda assim, a maioria deles permanece em guetos e distantes da paisagem enxaimel do Centro. São principalmente operários de fábricas e ajudam a construir as riquezas do município, assim como no passado, quando exerceram o trabalho mais pesado na implantação da colônia. Coube a eles a derrubada da mata fechada e a expansão das primeiras picadas.
- Já existiam alemães na região que faziam uso com freqüência da mão-de-obra dos negros antes de Doutor Blumenau chegar - confirma a professora responsável pelo Arquivo Histórico de Blumenau, Sueli Petry.
Conta a história
1568 - Começa o tráfico regular de escravos negros para o Nordeste do Brasil
1848 - Contratados por fazendeiros da época, escravos fazem o trabalho braçal de implantação da estrutura inicial da colônia
1848 - Doutor Blumenau assina legislação proibindo escravos nas terras da colônia. Estudiosos afirmam que ele e o sócio, Ferdinando Hackradt, admitem em cartas ter feito uso da mão-de-obra escrava
1882 - Pedro Wagner, um abastado colono de Blumenau, registra a compra de um escravo de nome Camillo, 40 anos, pelo valor de 600 mil réis
1883 - José Henrique Flores Filho assume a presidência da Câmara Municipal e transfere residência de Itajaí para Blumenau, trazendo consigo os escravos
1888 - A Lei Áurea de 13 de maio determina oficialmente a abolição da escravidão no Brasil. No entanto, o tráfico de pessoas e o trabalho compulsório continuam existindo
Fonte: Jornal de Santa Catarina, Blumenau – 11 2007
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