8.5.07
Maioridade ou ExtermÃnio?
Do ponto de vista das elites, o extermínio continua sendo a melhor alternativa
05/05/2007

Ana Luíza Pinheiro Flauzina - analuiza@irohin.org.br
Mestra em Direito pela Universidade de Brasília
Ativista do EnegreSer - Coletivo Negro no DF e Entorno
A decisão do último dia 26 de abril da Comissão de Constituição de Justiça do Senado Federal, que antecipa a maioridade penal para 16 anos no caso de cometimento de crime hediondo ou envolvimento com tráfico de drogas, é o alerta mais expressivo dos limites de nossas conquistas no debate com o institucional. Há argumentação jurídica primária que evidencia a inconstitucionalidade da Proposta de Emenda Constitucional nº 20, tendo em vista a questão da inimputabilidade penal dos menores de dezoito anos ser considerada cláusula pétrea. Mas esse, sabemos, é um debate que está longe de se resolver dentro dos meandros da argumentação jurídica formal.
O trato da legislação penal no Brasil ancora uma política de segurança pública que tem servido à produção de um genocídio incontestável da população negra, atingindo prioritariamente os jovens. De acordo com a Organização dos Estados Ibero-Americanos para a Educação, Ciência e a Cultura (OEI), em estudo referente aos anos de 2000-2004, o Brasil ocupa o terceiro lugar num ranking de 84 países quando se considera o assassinato de jovens. A esmagadora maioria, 93% das vítimas de assassinato no país, é composta de homens negros, sendo a chance de um jovem negro morrer vítima de homicídio 85,3% maior do que a de um branco. Sim, mas disso também já estamos cientes. Ao que tudo indica, os diagnósticos e as “garantias” constitucionais não servem de escudo nessa guerra de alta intensidade travada contra a população negra no Brasil.
O senador Demóstenes Torres, autor da proposta que reduz a maioridade penal, argumentou no clamor das discussões: “Precisamos entender o clamor das ruas. Dizem que as cadeias não recuperam ninguém. E as ruas, recuperam?” (Jornal O Globo, 27/04/2007, p.3). A visão das elites que ocupam historicamente os espaços da tomada de decisões no Brasil sinaliza para o menosprezo de nossas mais sérias reivindicações. Não se trata de procurar sanar um problema que extrapola os limites da segurança pública, no reforço da rede de proteção de jovens em situação de vulnerabilidade social, mas, ao contrário, de arrefecer os termos da vitimização negra, acionando o sistema penal única e exclusivamente pela via da repressão. A verdade é que simplesmente não se encontram motivos suficientes para investir na massa humana que vaga pelas “ruas”, sendo o extermínio a partir do contato antecipado com as agências do sistema de justiça criminal a melhor alternativa para o trato com esse contingente desumanizado pela força do racismo brasileiro.
Acima de qualquer lógica ou paradoxo, tudo é, portanto, permitido para a gerência do segmento social negro nesse país. Sem ceticismo exagerado, o que precisamos compreender de maneira clara é que, a final de contas, as garantias não nos garantem. Frutos de reivindicações sérias, os postulados de defesa dos direitos humanos e princípios constitucionais se tornam verniz para as práticas abusivas e viram pó quando o que está em jogo são os corpos negros que se amontoam diante da covardia das ações e omissões do Estado que alimentam um longo ciclo de violência e dor.
Assim, as alternativas se estreitam num jogo cada vez mais arriscado bancado pelas elites. Quanto a nós, enquanto esperamos a história contar as conseqüências da arrogância, vamos trabalhando numa direção que não se resume ao diálogo pueril com as instituições, buscando uma intervenção política de fortalecimento da consciência negra que, certamente, cumprirá o seu papel.
recebido de Quilombo Araras - quilomboararas@uol.com.br


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