Documentos do século 19 enriquecem a historiografia local e desvelam um passado desconhecido da gênese de Itajaí
por José Isaías Venera
"O passado é cheio de vida e seu rosto irrita, revolta, fere, a ponto de querermos destruí-lo ou pintá-lo de novo." Milan Kundera, escritor tcheco e conterrâneo do literato Franz Kafka, cria suas histórias como se fossem espelhos de uma constante luta contra o poder no interior das relações sociais. Em “O livro do Riso e do Esquecimento”, Kundera diz que "a luta do homem contra o poder é a luta da memória contra o esquecimento". Luta imanente à função dos museus e arquivos históricos. Espaços de resistência ao esquecimento.
Obstinado na luta pela inclusão de novas memórias na história de Itajaí, José Bento Rosa da Silva, que coordenou o projeto "Memória dos Bairros" até julho de 2006, pesquisa nos acervos do Centro de Documentação e Memória Histórica, desde meados da década de 1990, pistas que o ajudam a interpretar o passado de afro-descendentes na região. Mas, além dos descendentes, o pesquisador identificou referências à presença de africanos, que cruzaram o oceano Atlântico, desde a gênese de Itajaí. A descoberta dá visibilidade a um passado que é ignorado em boa parte das narrativas históricas locais, mostrando que a preservação da memória pode ser exercida, também, pelos mais fracos, caracterizando-se como resistência a práticas seletivas de preservação de memórias que não levam em conta a diversidade étnica e cultural.
As primeiras descobertas
Em documentos do Cartório de Registro de Imóveis do século 19, as primeiras descobertas: indicação da presença de africanos em Itajaí. Nessa época, os afro-descendentes e africanos eram considerados como imóveis que poderiam ser vendidos e comprados a qualquer momento. O professor explica que, quando se vendia ou se trocava escravos, era feita, também, uma avaliação da "mercadoria". No caso de escravos, aparecem nos registros a idade, o estado civil, as qualidades, os defeitos (achaques) e a origem. Foi observando a indicação da origem que o historiador descobriu que "na nossa região tinham escravos vindos de países da África. Falava-se só em crioulos, mas os documentos nos mostram que havia, também, os escravos africanos".
Bento comenta que, na historiografia catarinense, há referências somente à existência, no passado, de africanos em Florianópolis, São Francisco do Sul e Laguna. Agora, com a sua pesquisa, há a presença de africanos na região de Itajaí.
Caminhos da pesquisa
Em 2002, Bento foi cavoucar documentos empoeirados no sótão do Fórum de Itajaí e que, em 2003, integraram os acervos do Centro de Documentação. São processos cíveis e criminais, do século 19 e 20, com referências a africanos que moravam em Itajaí.
A pesquisa altera o curso da historiografia catarinense. Segundo o professor, nos trabalhos de história de Santa Catarina, há um silêncio sobre a presença de africanos no Estado. A ênfase é dada sempre para os crioulos - descendentes de africanos nascidos no Brasil.
Na história regional, o problema se agrava. Enquanto o pesquisador vem dando visibilidade a esses documentos - publicando artigos científicos e livros -, boa parte dos trabalhos de valor histórico se resume a discorrer sobre os afro-descendentes na condição de escravos, propagando sua invisibilidade de uma participação construtiva na história e na cultura da Itajaí. Livros como "A Pequena Pátria", de Marcos Konder, "Pequena história de Itajaí", de Edison d´Ávila, e "Famílias de Itajaí: mais de um século de história", de Marlene Rothbarth e Lindinalva Deólla, são exemplos de trabalhos que ignoram a participação de afro-descendentes e desconhecem a presença de africanos na origem histórica de Itajaí.
Para o professor, a ênfase dada somente à condição de escravos aos afro-descendentes produz o esquecimento de peculiaridades culturais desses grupos étnicos. É nesse cenário de embate étnico e de classe que o trabalho do professor ganha mais importância. Bento mora em Itajaí desde meados dos anos 80, quando deixou o seminário em Brusque e veio cursar graduação em História na Univali. Hoje, doutor em História, Bento tem Itajaí como sua cidade.
Uma nova história da origem de Itajaí
Com as pesquisas do professor Bento, desde a emancipação de Itajaí, em 1860, africanos e afro-descendentes estavam presentes no cotidiano da vila. Documentos jurídicos, religiosos e da câmara legislativa dão mais do que visibilidade à existência desses grupos étnicos: indicam sociabilidades oriundas do continente africano. O historiador comenta que, investigando esses documentos, alguns nomes de africanos foram identificados: Rafael, da nação africana; João e Manoel, de nação Congo; Antônio, Felipa, Joaquim e Manoel, de nação; Maria, de nação Benguela; Antônio, de nação Monjolo; Antônio, africano. A expressão "de nação" era uma forma de denominar os africanos no Brasil.
Os registros indicam, além da forte presença de africanos já no surgimento de Itajaí, suas profissões, quando eles eram submetidos à condição de escravos. Eram marinheiros, pedreiros, carpinteiros e trabalhadores da lavoura. Para o Jesuíta Antonil, eles eram as mãos e os pés dos senhores. Um exemplo é o pedreiro Simeão, escravo de Agostinho Alves Ramos, que, em 1835, construiu a primeira igreja de pedra e cal de Itajaí. Hoje, algumas paredes da edificação, construídas pelas mãos do descendente de africanos que, provavelmente, herdou a profissão de seus antepassados,
é parte da Igreja da Imaculada Conceição.
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continua em…
fonte integral: http://fgml.itajai.sc.gov.br/noticiasp_det.php?id_noticia=4820
Fonte: Fundação Genésio Miranda Lins (FGML)
Fone: 3348-1886 / Texto: José Isaías Venera
Data: 20/09/2006 / Título: Pesquisa revela uma outra história de Itajaí
Fonte: José Bento Rosa da Silva - e-mail: bentons@terra.com.br / negrobento@bol.com.br
recebido de humberto@adami.adv.br / 13 out. 2006