O Cajado e a Lança
a Abdias Nascimento
Deise Benedito - Fala Preta - São Paulo - SP
Por mais que busquemos as palavras, elas não poderão expressar toda a emoção que tomou conta de todos nós, durante a Manifestação Pró-Cotas, na II CIAD.
A ancestralidade se fez presente, com a intervenção dos Orixás, Voduns e Inquices. Jovens de 15, 18, 20, 25, 30 anos refaziam a trajetória de mobilização de seus pais, tios, avós, na história do Movimento Negro Brasileiro. Lá estavam apostos os mais hábeis guerreiros e guerreiras. A sabedoria se mostrava, identificada na presença de protagonistas do Movimento Negro, da década 1970: homens e mulheres negras, com seus cabelos grisalhos que evidenciavam todo o empenho, de dias e noites, na elaboração de documentos, propondo alternativas e denunciando o genocídio imposto a nós e perpetuado pelo racismo e pela discriminação no Brasil.
O Universo conspirava a nosso favor: Xangô, Ogum, Iansã perfilaram-se. Sandra de Sá, Toni Garrido… Leci Brandão, filha de Ogum, fez um pronunciamento que ecoou no Continente Africano e na Diáspora, afirmando a necessidade concreta da implementação de Cotas e Ações Afirmativas. Da Praça da Sé era possível ver a Baia de Todos os Santos, porto de chegada de inúmeros navios negreiros. Estávamos ali, na Praça, onde muitos dos nossos foram expostos à comercialização, após desumana e degradante travessia. "Afinal foram tantas cabeças que eu nem sem contar!".
Na manhã seguinte, Exu abriu os caminhos. Mais uma vez Leci empunhou a lança e defendeu as Cotas e Ações Afirmativas, em plenária. Foi aplaudida por mais de 5 minutos, de pé, por intelectuais, mulheres, jovens, empregadas domésticas, desempregados, religiosas. Leci foi a voz dos que foram impedidos de viver, daqueles que foram abatidos covardemente por aqueles que devem zelar por nossa segurança; daquelas que perderam sua vida em função do descaso nas macas dos corredores dos hospitais públicos, desaparelhados e desumanizados, espalhados por todo o país, vitimas das sanguessugas de plantão.
Mais uma vez, Ogum convoca seus guerreiros. Oyá suas guerreiras. Todos os Orixás se colocam como escudo protetor. E adentramos o salão que tem o nome da grande mãe de todas as cabeças, Yemanjá. Foi ela quem nos recebeu, pois, mais que qualquer um naquele auditório, Yemanjá sabia que ali estavam os filhos e as filhas do Continente Africano.
Oyá nos saúda, com sua espada: Edna Roland quebra o protocolo oficial e se levanta, repetindo ao microfone, as palavras de ordem que eram entoadas por mais de 300 pessoas que participavam daquela manifestação: “Cotas Raciais”; “Reparações Já”; “Brasil, África, América Central: a Luta do Negro é Internacional”; “Contra Cotas só Racistas”.
Oxalá, Nanã e Obaluaiê fizeram com que a leitura do documento pudesse ter sido feita em clima de paz e harmonia. Oxossi e Oxumaré estiveram de prontidão e os seguranças não nos molestaram, em momento algum.
Depois de o documento ter sido lido e entregue ao Ministro Gilberto Gil, todos cantaram o hino da Unidade Africana que hoje é hino nacional de alguns países no continente africano. Nesse momento um grande arco-íris formou-se no céu, desde o porto de Salvador até o porto de Aguda. O elo fundamental está restabelecido, uma vez que nunca foi rompido. As lágrimas molhavam nossos rostos, lavando a alma daqueles que não conseguiram chegar nessas terras, que ficaram no fundo do mar.
Abdias do Nascimento não estava no local, mas sua presença estava lá, sentida nos batimentos de nossos corações. Saímos vitoriosos. Com lágrimas nos olhos, recolhemos nossas lanças. Voltaríamos ao campo de batalha, na Plenária Final. Os Erês saltitavam com nossos jovens na coleta de assinaturas em prol do Manifesto: 1.800 assinaturas!
Mais uma vez fomos vitoriosos, na leitura da Carta de Salvador, que recomenda a implementação das Cotas e Ações afirmativas. Novamente cantamos o hino da Unidade Africana – Nkosi sikelel iAfrika. E, no final da sessão, à saída, fomos surpreendidos por garçons que nos ofereciam confeitos de chocolates e nozes, sucos, delícias que adoçavam nossas bocas e nos alegravam, como alegravam os Erês que estavam entre nós, para comemorar essa vitória.
No Fórum de Diálogos foi distribuída a Carta Aberta à II CIAD, onde consta a presença de Abdias Nascimento afirmando que "Os Estados Africanos têm uma responsabilidade histórica diante seus povos", na sua Carta Aberta à II CIAD, o Panafricanismo que operou algumas das transformações mais importantes da Humanidade. Ele esteve todo o tempo conosco, com seu Cajado (de conhecimento e de sabedoria) que nos é passado através de seus livros, onde ampliaremos nossos conhecimentos para novas batalhas. Do mesmo modo que teve a maestria do machado para fazer justiça, devemos estar preparados para usarmos as nossas lanças.
Afro Abraços
Deise